Um spec script é a versão de leitura, limpa, que você envia para compradores: sem números de cena, sem marcas de revisão e com o mínimo de indicações de câmera. Um roteiro de filmagem é a versão de produção travada: cada cena é numerada, as páginas alteradas levam cor e data de revisão, e ele pode trazer mais indicações técnicas para equipe, elenco e pós-produção. Você vende um spec e filma um roteiro de filmagem. Outras normas de página estão no guia completo de formatação de roteiro.
Você entrega um roteiro. Ele está limpo. Sem números de cena. Sem (CONT.) entupindo os diálogos. Ele se lê como uma história. Aí alguém diz que vai mandar para o diretor de produção. A próxima coisa que você vê tem números na margem, páginas revisadas e um cabeçalho que diz "ROTEIRO DE FILMAGEM". É a mesma história. Não é o mesmo documento. O spec serve para vender e ser lido. O roteiro de filmagem serve para fazer o filme. Se você não conhece a diferença, vai entregar a coisa errada na hora errada, ou vai ser reescrito por alguém que conhece.
Roteiristas se importam com o spec. É ele que consegue agente, vaga em sala de roteiro e contratação. A produção se importa com o roteiro de filmagem. É ele que é planejado, orçado e filmado. São duas fases da mesma história. Regras diferentes. Leitores diferentes.
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O que é um spec script
Um spec script é um roteiro escrito "on speculation", sem comprador garantido nem compromisso de produção. É a versão que você usa para conseguir representação, entrar em concursos e mandar para produtores e executivos de desenvolvimento. O único trabalho dele é ser lido. Por isso é otimizado para clareza e fluidez. Sem números de cena. Sem indicações de câmera (ou pouquíssimas). Sem anotações técnicas. Só história, personagens, diálogo e ação. Quem lê deve esquecer que está lendo um roteiro. Deve ver o filme.
O padrão do formato spec americano: Courier 12 (ou equivalente), margens de cerca de 2,5 cm, diálogo e ação na mesma fonte. Cabeçalhos de cena em maiúsculas. Nomes dos personagens em maiúsculas acima do diálogo. Rubricas entre parênteses no mínimo. Sem encadernação, ou em PDF. O objetivo é parecer profissional e não atrapalhar. Tudo o que lembra quem lê que aquilo é uma planta de construção, ângulos de câmera, escolha de lente, números de cena, pertence a outra fase. Como vimos em como formatar ligações telefônicas e outras escolhas técnicas, mesmo num spec você toma decisões de formatação que afetam a leitura. Mas ainda não toma decisões de produção.
O spec script responde a uma pergunta: eu iria querer ver este filme? O roteiro de filmagem responde a outra: como vamos construí-lo?
A particularidade brasileira e portuguesa: cenas numeradas desde cedo
A regra do "nada de números" vem do mercado americano e não vale do mesmo jeito em todo lugar. No Brasil e em Portugal é comum numerar as cenas desde as primeiras versões ("CENA 12. INT. COZINHA - NOITE"), sobretudo na televisão e no streaming nacional, e emissoras, plataformas e comissões de editais estão acostumadas. Mantenha os números se você escreve para esse mercado e tire se for mandar um spec para um manager, um concurso ou uma produtora de língua inglesa. A decupagem técnica, feita pela direção, costuma ser um documento à parte do roteiro de filmagem.
O que é um roteiro de filmagem
O roteiro de filmagem é a versão travada usada na pré-produção e na filmagem. Ele tem números de cena. Cada cena recebe um número (1, 2, 3...) para que o plano de filmagem, o orçamento, as ordens do dia e a montagem se refiram à mesma coisa. "Hoje filmamos as cenas 24 e 27." Isso só funciona se o roteiro estiver numerado. O roteiro de filmagem também pode trazer páginas revisadas (com cores e datas), notas de produção e às vezes indicações técnicas mais explícitas. É um documento de trabalho. Para ver como quem está no topo da cadeia usa esses documentos, leia o que é um showrunner e como se tornar um. Ele passou pelo desenvolvimento. Pode ter sido reescrito pela direção, pelo showrunner ou por outros roteiristas. É a versão que o assistente de direção e o diretor de produção decupam. É a versão que está no set.
Em geral, não é o roteirista quem cria o primeiro roteiro de filmagem. É o escritório de produção. Ele pega o roteiro aprovado (muitas vezes ainda em formato spec), acrescenta os números de cena e distribui como roteiro de filmagem. Daí em diante, qualquer mudança gera páginas revisadas. Uma cena nova ganha uma letra (24A). Uma cena cortada mantém o número, mas é marcada como OMITIDA (OMITTED em inglês). O sistema mantém todo mundo na mesma página, literalmente.

Lado a lado: por que eles se separam
| Aspecto | Spec script | Roteiro de filmagem |
|---|---|---|
| Números de cena | Nenhum (mercado dos EUA) | Toda cena numerada |
| Revisões | Não se aplica | Cores, datas, "Rev." no cabeçalho |
| Indicações de câmera e técnicas | Evitadas ou mínimas | Podem ser mais (depende da direção) |
| Leitores | Leitores, compradores, executivos | Equipe, elenco, pós, orçamento |
| Quando é usado | Desenvolvimento, pitch, salas de roteiro | Da pré-produção ao fim da filmagem |
O spec é um documento de venda e leitura. O roteiro de filmagem é um documento de fabricação. Ninguém "vende" um roteiro de filmagem. Filma.

Caso prático: o primeiro roteiro enviado na versão errada
Você escreveu um longa. Sua agente diz "manda o roteiro para esse produtor americano". Você manda a única versão que tem, a que vem mexendo há meses, com números de cena que você colocou "para se localizar" e alguns "vemos" e "a câmera avança" porque gostava do efeito. O produtor lê. Ele não recusa por causa dos números. Mas a leitura fica técnica. Ele é lembrado de que está lendo uma planta. O spec deve se ler como uma história. Você mandou um híbrido. Da próxima vez, mande a versão limpa. Sem números. Sem indicações de câmera. Deixe a história conduzir. Guarde a outra para quando pedirem a versão de filmagem. Para manter o roteiro legível e profissional, veja também como descrever efeitos sonoros num roteiro: o princípio é o mesmo, só o que quem lê precisa.
Caso prático: a roteirista da sala que recebe páginas revisadas
Você está numa série. Escreveu o episódio quatro. Chega um PDF: "Episódio 104, Rev. Azul, 14/02". Suas cenas estão lá, mas numeradas. Alguns diálogos mudaram. Uma cena sua agora é a 6A: foi dividida. Essa reescrita não foi sua, foi do showrunner ou da direção. É normal. O roteiro de filmagem é um documento vivo. Seu trabalho na equipe é entender o processo de revisão. Podem pedir que você escreva as páginas revisadas do seu próprio episódio ou que revise o de outra pessoa. O roteiro de filmagem é a fonte da verdade. Você trabalha a partir dele. Não insiste que o roteiro "de verdade" é a sua versão original. O roteiro de verdade é o que está sendo filmado.
O que os iniciantes erram
Numerar um spec pensado para o mercado americano. Isso te marca como inexperiente. Para um leitor americano, números são coisa de produção e de versões que já passaram pelo desenvolvimento. Se você vai mandar para um concurso, um manager ou uma produtora dos EUA, tire. Para uma emissora ou comissão brasileira ou portuguesa, a questão é outra, como vimos acima.
Escrever como diretor num spec. "A câmera sobe numa grua." "Corta para um close." "Plano geral: a cidade." Alguns leitores acham irritante; outros, presunçoso. O spec não é o lugar para decupar o filme. Escreva o que vemos e o que acontece. Deixe a lente para a direção. Se você também vai dirigir, pode acrescentar isso na decupagem ou na lista de planos.
Supor que o seu spec nunca será numerado. Quando o roteiro for comprado ou financiado, ele vai virar roteiro de filmagem. Isso não quer dizer que você deve escrevê-lo assim agora. Quer dizer que é bom evitar o que complica a transição, como escrever 80 cenas onde 40 bastariam, ou cenas impossíveis de planejar. Pense como contador de histórias no spec. Pense um pouco na produção quando terminar. Você não precisa pôr números. Precisa escrever algo que possa ser decupado.
Ignorar o protocolo de revisão na produção. Numa série ou num longa com sinal verde, o roteiro de filmagem tem regras. Páginas novas ganham uma cor de revisão. Cenas acrescentadas viram A, B, C. Não se renumera o roteiro inteiro. Não se mandam reescritas sem marcação. Aprenda o protocolo. O escritório de produção explica se você perguntar. Melhor perguntar do que mandar a coisa errada.
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Start FreeQuando o spec vira roteiro de filmagem
A transição acontece quando o projeto é aprovado para pré-produção. O escritório de produção (ou o roteirista, se for o caso) pega o roteiro travado e acrescenta os números de cena. Esse é o primeiro roteiro de filmagem. Daí em diante, cada mudança é registrada. Se você é o roteirista, pode ser chamado a escrever as revisões. Elas são distribuídas como páginas coloridas. O roteiro continua sendo um documento só, todos têm os mesmos números de cena, mas as páginas mudam. É assim que a equipe se mantém atualizada. Quando você for contratado para uma sala ou uma reescrita, vai trabalhar dentro desse sistema.

As páginas revisadas e a vida do roteiro de filmagem
Quando o roteiro de filmagem está em circulação, as mudanças são rastreadas. Um ajuste de diálogo, uma cena nova, um corte: cada um gera páginas revisadas. O escritório de produção define uma cor de revisão (azul, rosa, amarelo...) e uma data. O cabeçalho pode dizer "Rev. Azul, 18/02". Só as páginas alteradas são redistribuídas. Cada pessoa troca apenas essas páginas na sua cópia. O roteiro continua sendo um documento só, com os mesmos números, mas o conteúdo evolui. Quem é novo na produção às vezes manda uma versão completa sem cores de revisão. Isso quebra o sistema.
Em muitas produções brasileiras e portuguesas o sistema de cores é menos rígido que em Hollywood: circulam versões numeradas e datadas ("V7, 18/02") com as mudanças marcadas por um asterisco na margem. O princípio é o mesmo: um único documento de referência, mudanças visíveis, nada de renumerar. Pergunte ao escritório de produção como ele quer receber as revisões e siga esse protocolo.

Por que o formato spec continua
Mesmo depois da venda, as primeiras versões de desenvolvimento costumam ficar em formato spec. A produtora e os roteiristas ainda estão mudando a história, e numerar cedo demais obrigaria a renumerar sempre que uma cena entrasse ou saísse. Então o roteiro fica "limpo" até ser travado para a pré-produção. Aí o escritório de produção acrescenta os números e distribui o primeiro roteiro de filmagem. Quando uma executiva diz "me manda a última versão", em geral ela quer a versão de leitura, a não ser que tenha pedido "o roteiro de filmagem". Quando o diretor de produção ou o assistente de direção pedem "o roteiro", querem o numerado. Uma palavra, dois documentos. Acerte.

A perspectiva
O spec script é para a leitura. O roteiro de filmagem é para a construção. Escreva o spec para ser vendido e lido, sem entulhá-lo com a maquinaria da produção. Quando o projeto avançar, o roteiro de filmagem vai nascer do seu trabalho, e vai evoluir. Seu trabalho é saber qual documento você está escrevendo em cada momento e entregar o certo para a pessoa certa. Acerte isso e vai parecer que você faz isso há anos.
FAQ
Devo numerar as cenas de um roteiro que vou enviar?
Para o mercado americano, não: o spec sem números é a norma. Para emissoras, plataformas, produtoras e comissões no Brasil ou em Portugal, cenas numeradas são comuns e bem aceitas. Adapte-se a quem recebe.
Quem transforma o spec em roteiro de filmagem?
Em geral o escritório de produção, no travamento antes da pré-produção. Depois o roteirista pode ser chamado a escrever as páginas revisadas.
O que significa uma cena 24A?
É uma cena acrescentada depois da numeração, inserida entre a 24 e a 25. Acrescenta-se uma letra em vez de renumerar para que o plano de filmagem e as ordens do dia continuem válidos.
Roteiro de filmagem e decupagem técnica são a mesma coisa?
Não. O roteiro de filmagem é o roteiro numerado e travado que toda a equipe usa. A decupagem técnica acrescenta os planos, enquadramentos e movimentos previstos pela direção. Dependendo da produção, os dois convivem ou são fundidos.
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