Formatação14 min de leitura

Cartelas, letterings e GCs: como escrever no roteiro

Texto na tela faz parte da gramática da história. Cartelas, letterings e GCs: as diferenças, regras de maiúsculas e quando um texto na tela funciona melhor que uma fala de exposição.

Esboço técnico em fundo escuro: exemplos de cartela, lettering e GC numa página de roteiro, linhas brancas finas sobre preto
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ScreenWeaver Editorial Team

23 de junho de 2026

Updated 28 de outubro de 2026

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Escolha primeiro a camada e depois uma única palavra-chave para ela: CARTELA para texto em tela cheia, LETTERING (SUPER em inglês) para texto sobre a imagem e GC (LOWER THIRD) para nome ou função, sempre seguida do texto exato entre aspas, por exemplo LETTERING: "LONDRES - DIAS ATUAIS". Coloque a linha onde o público vê o texto, indique duração só quando a história precisar e escreva as telas do mundo do filme, como um celular, como ação comum. A referência completa está no nosso guia completo de formatação.

"PARIS, 1940." Um nome aparece sob o rosto de uma senadora. Uma tarja corre na tela: MERCADOS EM QUEDA LIVRE. Três camadas de texto diferentes, três funções diferentes, e os iniciantes formatam todas do mesmo jeito, ou nem formatam.

Cartelas, letterings e GCs são a tipografia do cinema. Eles orientam, identificam e pressionam a história com informações que os personagens talvez não digam em voz alta. O roteirista não desenha fontes. Ele define o conteúdo e o momento para que leitores, montadores e a equipe de grafismo fiquem alinhados.

Este guia diferencia cada tipo de texto, mostra convenções consistentes e passa pelas regras práticas para o seu roteiro ficar limpo e pronto para produção.

O vocabulário em português e em inglês

Os nomes mudam conforme o país e a função. Estas são as equivalências úteis; escolha um conjunto e mantenha no roteiro inteiro.

CamadaRoteiro americanoUso comum em português
Texto em tela cheiaTITLE CARDCARTELA
Texto sobre a imagemSUPER ou CHYRONLETTERING, LEGENDA DE LOCAL ou TARJA (no jornalismo)
Nome e função na parte de baixoLOWER THIRDGC (gerador de caracteres) ou CRÉDITO

"GC" vem do gerador de caracteres das ilhas de edição e das redações de TV, e é o termo que as equipes de jornalismo e documentário no Brasil usam até hoje. Em Portugal, fala-se mais em "oráculo" para o rodapé de identificação. Se o roteiro vai para uma produtora de língua inglesa, use os termos em inglês. Os esquemas deste artigo estão em inglês.

Como funciona: três camadas, três funções

Cartela: texto em tela cheia ou dominante, muitas vezes separado da ação. Saltos de lugar ou tempo, títulos de capítulo, TRÊS ANOS DEPOIS, quebras estilizadas como PARTE UM: A CAÇADA.

Lettering: texto sobre a ação ou sobre imagens de cobertura. Tarjas de plantão, indicação de local, marcação de horário. Costuma ficar no alto ou embaixo do quadro.

GC: identificação de nome e função, normalmente embaixo à esquerda. RAFAEL COSTA - ADVOGADO DE DEFESA. Comum em documentários, cenas de telejornal e dramas políticos.

Os três ficam na parte de ação do roteiro, nunca como diálogo. Escolha uma convenção e repita.

Três quadros 16:9: uma cartela preta em tela cheia escrita THREE YEARS LATER, uma tarja vermelha de plantão sobre uma imagem ao vivo e um GC de nome e função embaixo à esquerda, cada um acima da linha de roteiro que o pede (esquema em inglês)

Onde cada camada costuma ficar na tela, com a linha de roteiro correspondente. Esquema em inglês.

Diga o que o público lê. Deixe a produção escolher como fica.

Para os fundamentos de texto na tela, veja letterings de local e tempo. Para o uso em redação, veja como formatar cenas de telejornal. Para o texto que rola na abertura (parente da cartela), veja o formato do texto de abertura.

Por formato e uso

Longa-metragem: cartelas de capítulo e de local

Exemplo de cartela:

CARTELA: "SÃO PAULO - 1927"

FADE IN:

Quando usar: filmes de época, estruturas em capítulos, saltos de tempo grandes demais para o diálogo.

Evite: uma cartela em cada cena. O cansaço chega rápido.

Série dramática: estrutura de episódio

GC na primeira aparição:

LETTERING: "DELEGADA ANA MERCÊS"

Ela entra na delegacia. Ninguém levanta os olhos.

Quando usar: elencos grandes, tom documental, apresentações do primeiro episódio.

Jornalismo e docuficção

Tarja e GC combinados:

NA TV - CANAL DE NOTÍCIAS

TARJA: "PLANTÃO - VOTAÇÃO É DERRUBADA"

GC: "SENADORA HALE - COMISSÃO DE FINANÇAS"

Quando usar: sequências de mídia dentro da história, thrillers políticos.

Streaming e minisséries

Cartelas estilizadas entre episódios ou atos. Mesmo formato do longa. Anote (SEGURAR 3 SEGUNDOS) só se o tempo for essencial para uma piada ou para o ritmo.

Idiomas estrangeiros e legendas

Quando um GC identifica quem fala e as legendas traduzem a fala, indique a tradução na formatação do diálogo conforme as regras de idiomas estrangeiros e legendas. Não empilhe letterings redundantes.

Pense também na distribuição internacional: em cada versão estrangeira, suas cartelas e GCs serão traduzidos por legendas forçadas ou refeitos pelo grafismo. Texto curto e exato se localiza melhor do que uma frase longa.

Passo a passo: acrescentar camadas de texto corretamente

Passo 1: decida a camada. Título em tela cheia? Texto sobre a imagem? Só identificar um nome? A camada errada confunde a produção.

Passo 2: escolha sua palavra-chave. Opções comuns: CARTELA:, LETTERING:, TARJA:, GC: (ou os equivalentes em inglês). Uma palavra-chave principal por roteiro.

Passo 3: escreva o texto exato entre aspas. LETTERING: "LONDRES - DIAS ATUAIS", não Aparece uma indicação de local.

Passo 4: coloque a linha onde o público vê. Normalmente logo antes do plano em questão ou no corte para ele.

Passo 5: indique duração só quando a história exigir. (CARTELA - 2 SEGUNDOS) para comédia em sequência rápida ou para sincronizar com uma batida de música.

Passo 6: separe o texto do mundo do filme dos letterings formais. O texto da tela de um celular fica na ação: O celular dela mostra: 2h34. Um salto de tempo formal usa LETTERING: ou CARTELA:.

Passo 7: procure redundâncias. Se o diálogo já diz "Estamos em Londres", talvez o lettering seja dispensável, a não ser que o estilo peça.

Caminho de decisão com três perguntas de sim ou não: o texto faz parte do mundo do filme, ocupa a tela toda, nomeia uma pessoa, levando a uma linha de ação, uma cartela, um GC ou, por padrão, um lettering, cada um com uma linha de exemplo (esquema em inglês)

Os passos 1 e 6 como caminho de decisão. Esquema em inglês.

Parte prática: referência de formato e requisitos

Tabela de referência rápida

TipoFunçãoExemplo de formato
CartelaCapítulo, local, tempoCARTELA: "ATO II"
Lettering ou tarjaOrientar, plantãoTARJA: "FIQUEM EM CASA"
GCNome, função, identificaçãoGC: "MARA LIN - DENUNCIANTE"
Tela do mundo do filmeCelular, computador, objetoLinha de ação, sem lettering

Maiúsculas e pontuação

Os costumes variam. Consistência vale mais que debate sobre o certo. Escolha:

  • Tudo em maiúsculas: LETTERING: "NOVA YORK - 1999"
  • Ou com inicial maiúscula entre aspas: LETTERING: "Nova York - 1999"

Nunca os dois no mesmo roteiro. Mantenha também a mesma grafia para horas e datas ("6h" ou "6:00", mas não ambos).

Sinais de exagero

  • Mais de três letterings em cinco páginas sem saltos de tempo
  • Um GC para cada personagem que fala num jantar
  • Tarjas que repetem o diálogo que acabamos de ouvir

Entrega para a produção

A equipe de grafismo extrai os letterings da decupagem. Texto exato evita e-mails de esclarecimento caros na pós.

Acessibilidade

Os letterings levam informação que o público que enxerga recebe pela visão. Garanta que fatos essenciais não fiquem inacessíveis ao público cego, a não ser que outro canal os repita (diálogo ou uma nota para a audiodescrição, exigida por lei em parte da programação brasileira).

Caso prático: um piloto em várias cidades

Seu piloto pula de Recife para Varsóvia e Dubai em vinte páginas. As cartelas carregam o peso para que as cenas não comecem com personagens anunciando a geografia.

CARTELA: "RECIFE - 6H"

INT. METRÔ - EM MOVIMENTO - DIA
...

CARTELA: "VARSÓVIA - 14H"

INT. APARTAMENTO - DIA
...

CARTELA: "DUBAI - 21H"

EXT. MARINA - NOITE

A formatação idêntica educa quem lê. A produção cria um único modelo de cartela e reaproveita.

O trecho com várias cidades e suas três linhas TITLE CARD destacadas, ao lado de três cartelas pretas idênticas para Chicago 6 AM, Warsaw 2 PM e Dubai 9 PM feitas a partir de um modelo, cada uma seguida do cabeçalho de cena (esquema em inglês)

Três linhas idênticas na página, três cartelas idênticas na tela. Esquema em inglês, com Chicago no lugar de Recife.

Caso prático: uma apresentação em tom documental

A primeira vez que conhecemos uma senadora numa docuficção:

INT. SALA DA COMISSÃO - DIA

GC: "SENADORA DIANA HALE - PRESIDENTE DA CPI"

Hale ajeita o microfone. Já está no meio da frase na transmissão.

O GC faz o trabalho de identificação que o diálogo não deveria desperdiçar. Quando ela volta três episódios depois sem GC, o público lembra.

Revisão antes da entrega

Procure no PDF exportado LETTERING, TARJA, CARTELA e GC. Se duas cenas vizinhas usam lettering para o mesmo local sem salto de tempo, corte um. Se um personagem diz em voz alta o texto do lettering na linha seguinte, apague a fala ou o lettering.

Lista de verificação: procurar SUPER, CHYRON, TITLE CARD e LOWER THIRD no PDF exportado, fazer três perguntas a cada resultado e três sinais de exagero (esquema em inglês)

A revisão e os sinais de exagero numa só ficha. Esquema em inglês.

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Resultados: o que uma formatação limpa entrega

Orientação para quem lê. Ninguém precisa adivinhar se o texto é em tela cheia ou sobreposto.

Eficiência na pós. O grafismo sabe o que construir.

Controle do tom. Peso documental, cartelas de capítulo cômicas ou urgência de plantão: cada um se lê diferente quando formatado de forma distinta.

O que dá errado:

  • Um vago "aparece um texto"
  • Palavras-chave inconsistentes (LETTERING, TARJA e CARTELA ao acaso)
  • Letterings que duplicam o diálogo
  • Cartelas para informação que ficaria melhor mostrada na cena

O teste: entregue o roteiro a alguém que não conhece a história. Depois de uma sequência com salto de tempo, essa pessoa consegue dizer o novo lugar e o novo horário sem reler o diálogo? Se sim, suas camadas de texto funcionaram.

Por que importa: o jeito antigo e o novo

O jeito antigo: roteiristas achavam que a montagem "colocaria os títulos na pós" e deixavam a página vazia. Quem lia tropeçava. O grafismo recebia orientações contraditórias.

O jeito novo: o roteiro especifica o texto na tela com a mesma disciplina da formatação de cenas de telejornal. Salas de roteiro de séries políticas ou de tom documental mantêm uma lista de letterings por episódio.

Tipografia na tela é autoria. Formate com clareza e você passa a ser dono da arquitetura de informação do seu filme, não só das falas.

Mãos à obra: o texto na tela é seu

Revise o roteiro hoje à noite. Marque cada momento de texto na tela. Identifique como cartela, lettering ou GC. Escreva as palavras exatas. Corte as duplicatas.

A produção vai escolher fontes e animação. Você escolhe o que o público sabe e quando sabe.

Escolha sua palavra-chave. Escreva o texto. Coloque onde o corte cai. O quadro é seu. As palavras nele também deveriam ser.

FAQ

Qual a diferença entre cartela e lettering?

A cartela ocupa a tela inteira, muitas vezes sobre fundo preto. O lettering fica sobre a imagem em curso, como uma indicação de local ou uma tarja de notícia.

O que é GC?

É a identificação de uma pessoa por nome e função na parte de baixo da tela. O termo vem do gerador de caracteres da TV; em inglês, chama-se lower third.

Escrevo SUPER ou LETTERING?

Os dois são entendidos. Escolha conforme quem vai receber, brasileiro, português ou estrangeiro, e mantenha a mesma palavra no roteiro inteiro.

Como escrever o que aparece na tela de um celular?

Como linha de ação comum, por exemplo "O celular dela mostra: 2h34". Letterings formais ficam para o texto que só o público vê.

Preciso indicar fonte ou cor?

Não. O roteiro define o texto exato e o momento; fonte, cor e animação são com o grafismo.

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